segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Índios Zo'é pedem socorro

Depois de quase 20 anos de um primitivismo absurdo imposto por funcionários da Funai (Fundação Nacional do Índio), ligados à Coordenação Geral de Índios Isolados e recém contatados e à ONG Amazoé, os índios Zo'é saíram de sua reserva, para reinvindicar seus direitos. Imagens feitas por um cinegrafista amador, em que aparecem vários Zo’e pedindo socorro, foram exibidas pela TV Atalaia, em Oriximiná - PA, no dia 18 de outubro deste ano. Finalmente esses índios perceberam que seus direitos estão sendo violados por pessoas que se dizem seus defensores e decidiram gritar por liberdade.




sábado, 27 de março de 2010

A estranha teoria do homicídio sem morte

Marcia Suzuki
Alguns antropólogos e missionários brasileiros estão defendendo o indefensável. Por meio de trabalhos acadêmicos revestidos em roupagem de tolerância cultural, eles estão tentando disseminar uma teoria no mínimo racista. A teoria de que para certas sociedades humanas certas crianças não precisariam ser enxergadas como seres humanos. Nestas sociedades, matar essas crianças não envolveria morte, apenas “interdição” de um processo de construção de um ser humano. Mesmo que essa criança já tenha 2, 5 ou 10 anos de idade.
Deixe-me explicar melhor. Em qualquer sociedade, a criança precisa passar por certos rituais de socialização. Em muitos lugares do Brasil, a criança é considerada pagã se não passar pelo batismo. Ela precisa passar por esse ritual religioso para ser promovida a “gente” e ter acesso à vida eterna. Mais tarde, a criança terá que passar por outro ritual, que comemora o fato dela ter sobrevivido ao período mais vulnerável, que é o primeiro ano de vida. A festa de um aninho é um ritual muito importante na socialização da criança. Alguns anos mais tarde ela vai frequentar a escola e passará pelo difícil processo de alfabetização. A primeira festinha de formatura, a da classe de alfabetização, é uma celebração da construção dessa pessoinha na sociedade. Nestas sociedades, só a pessoa alfabetizada pode ter esperança de vir a ser funcional. E assim vai. Ela vai passar por um longo processo de “pessoalização”, até se tornar uma pessoa plena em sua sociedade.
Esse processo de socialização é normal e acontece em qualquer sociedade humana. As sociedades diferem apenas na definição dos estágios e na forma como a passagem de um estágio para outro é ritualizada.
Pois é. Esses antropólogos e missionários estão defendendo a teoria de que, para algumas sociedades, o “ser ainda em construção” poderá ser morto e o fato não deve ser percebido como morte. Repetindo: caso a “coisa” venha a ser assassinada nesse período, o processo não envolverá morte. Não é possível se matar uma coisa que não é gente. Para esses estudiosos, enterrar viva uma criança que ainda não esteja completamente socializada não envolveria morte.
Esse relativismo é racista por não se aplicar universalmente. Tais estudiosos não aplicam esta equação às crianças deles. Ou seja, aquelas nascidas nas grandes cidades, mas que não foram plenamente socializadas (como crianças de rua, bastardas ou deficientes mentais). Essa equação racista só se aplicaria àquelas crianças nascidas na floresta, filhas de pais e mães indígenas. Racismo revestido com um verniz de correção política e tolerância cultural.
Tristemente, o maior defensor desta hipótese é um líder católico, um missionário. Segundo ele "o infanticídio, para nós, é crime se houver morte. O aborto, talvez, seja mais próximo dessa prática dos índios, já que esta não mata um ser humano, e sim interdita a constituição do ser humano".1
Uma antropóloga da UNB concorda: "Uma criança indígena quando nasce não é uma pessoa. Ela passará por um longo processo de pessoalização para que adquira um nome e, assim, o status de 'pessoa'. Portanto, os raríssimos casos de neonatos que não são inseridos na vida social da comunidade não podem ser descritos e tratados como uma morte, pois não é. Infanticídio, então, nunca".2
Mais triste ainda é que esta antropóloga alega ser consultora da UNICEF, tendo sido escolhida para elaborar um relatório sobre a questão do infanticídio nas comunidades indígenas brasileiras.3 Como é que a UNICEF, que tem a tarefa defender os direitos universais das crianças, e que reconhece a vulnerabilidade das crianças indígenas4, escolheria uma antropóloga com esse perfil para fazer o relatório? Acredito que eles não saibam que sua consultora defende o direito de algumas sociedades humanas de “interditar” crianças ainda não plenamente socializadas.5
O papel da UNICEF deveria ser o de ouvir o grito de socorro dos inúmeros pais e mães indígenas dissidentes, grito este já fartamente documentado pelas próprias organizações indígenas e ONG’s indigenistas.6
A UNICEF deveria ouvir a voz de homens como Tabata Kuikuro, o cacique indígena xinguano que preferiu abandonar a vida na tribo do que permitir a morte de seus filhos. Segurando seus gêmeos sobreviventes no colo, em um lugar seguro longe da aldeia, ele comenta emocionado: “Olha prá eles, eles são gente, não são bicho, são meus filhos. Como é que eu poderia deixar matar?”.7
Para esses indígenas, criança é criança e morte é morte. Simples assim.
Notas
2. idem
3. Marianna Holanda fez essa declaração em palestra que ministrou em novembro de 2009 no auditório da UNIDESC, em Brasília.
4. Segundo relatório da UNICEF, as crianças indígenas são hoje as crianças mais vulneráveis do planeta. “Indigenous children are among the most vulnerable and marginalized groups in the world and global action is urgently needed to protect their survival and their rights, says a new report from UNICEF Innocenti Research Centre in Florence.”
5. Em algumas sociedades, crianças não socializadas seriam gêmeos, filhos de mãe solteira, de viúvas ou de relações incestuosas, crianças com deficiência física ou mental grave ou moderada, etc. A dita “interdição” do processo pode ocorrer em várias idades, tendo sido registrada com crianças de até 10 anos de idade, entre os Mayoruna, no Amazonas. Marianna defende essa “interdição” em dissertação intitulada “Quem são os humanos dos direitos?” Estudo contesta criminalização do infanticídio indígena
7. Trecho de depoimento do documentário “Quebrando o Silêncio”, dirigido pela jornalista indígena Sandra Terena. O documentário está disponível no link www.quebrandoosilencio.blog.br
• Márcia Suzuki é conselheira de ATINI – voz pela vida. http://www.atini.org/
Leia o que Ultimato publicou sobre o assunto
Em breve leia também o livro “E uma criança os guiará”, lançamento do mês de maio!
Fonte.www.ultimato.com.br
25 de março de 2010

terça-feira, 14 de julho de 2009

ÍNDIOS ISOLADOS: UM MISTÉRIO NA AMAZÔNIA

A selva amazônica tem sido palco de muitos mistérios. Nesse cenário, permeia um grande repertório de mitos e lendas que transmitidos de geração em geração e até mesmo fazendo parte da literatura regional impressionam a sociedade nacional e internacional. O folclore regional é enriquecido pela mitologia da Cobra Grande, do Jurupari, do Boto e muitos outros. Esse clima de mistério continua nos ares, principalmente, quando se trata dos interesses de pessoas e entidades de outros países pela Amazônia e a atitude passiva do governo brasileiro diante desses acontecimentos, como tem sido fartamente divulgado nos meios de comunicação.
Atualmente, um grande mistério detectado pelo povo santareno, refere-se aos índios Zo’é que vivem entre os rios Cuminapanema e Erepecuru nos municípios de Óbidos e Alenquer no Oeste do Pará e contatados na década de 1980. Esses índios, segundo informações que circulam de boca em boca nesta cidade e nos meios de comunicação, mesmo depois de 20 anos de contato com a sociedade nacional e, principalmente, com a internacional (que os visitam constantemente), continuam sendo mantidos no status de isolados pelo Departamento de Índios Isolados da Funai. E, sendo que essa etnia não se encaixa mais nessa categoria, como prescreve o Estatuto do Índio, foi criada na reserva indígena algo chamado de Frente de Proteção Etno-ambiental, que se tornou mais um enigma a ser decifrado.
O mistério se dá pelo fato de que em todas as matérias jornalísticas feitas nos últimos anos sobre esse povo, somente mostram os índios vivendo “na idade da pedra”, insinuando que estão felizes nesse estado de extremo primitivismo. Embora o trabalho da Frente seja enaltecido, nunca é apresentada à sociedade brasileira a estrutura montada no local para atendê-los e nem as parcerias firmadas para a execução desse projeto. Inclusive, algumas pessoas que ali atuam ou atuaram nos últimos anos, quando procuradas por repórteres da cidade disseram que não podem falar sobre o que acontece lá dentro.
Contudo, em “O Liberal” de setembro de 2006 foi notificado que a Frente Etno-ambiental Cuminapanema concorria ao prêmio de Super-Ecologia promovido pela revista “Superinteressante” e que os Zo’é fizeram a inscrição por telefone via satélite. Também Paulo Lima, em matéria publicada na revista “Fórum” Edição 63 - junho de 2008, deixou escapar que “A Frente tem um cuidado paisagístico impressionante. O João Lobato e sua equipe fizeram, ao longo desse tempo, intervenções que surpreendem o olhar de um observador que tinha a expectativa de condições precárias para uma Frente da Funai para populações isoladas.” Isso confirma os comentários que circulam na cidade de que foi construída na área indígena uma super-estrutura com casas e móveis de primeira linha, enquanto aos indígenas é negado o acesso aos bens de consumo, mesmo os mais simples, que poderiam facilitar suas vidas.
Em matéria da revista acima citada (Julho de 2004) é revelado um fato, no mínimo, intrigante, pois diz “O indigenista João Lobato, atual chefe da Frente, chegou em 1996. Encontrou os índios vestidos e vivendo em função de um posto do governo. (...) Em primeiro lugar roupas foram queimadas e todos voltaram a andar nus como antes.” Da mesma forma, em entrevista a uma TV estrangeira (http://www.referencies.cat/ Numero 32, 2008, Ano XII), ele próprio declara que: “... em 96, falecendo o Chefe da frente de contato Cuminapanema fui chamado pelo Coordenador Sidney Possuelo a assumir o posto (...). Os Zo’é já usavam roupas, já tinham alimentação, cotidianamente oferecida pela FUNAI. (...) aí queimamos as roupas e hoje os Zo’é são totalmente autônomos na sua alimentação ...”
Percebe-se aqui um grande paradoxo: o chefe da Frente Etno-ambiental destruiu os bens adquiridos pelos índios junto aos próprios funcionários da Funai, que o antecederam nesse local, mas disponibilizou um telefone via satélite para promover as ações da Frente Etno-ambiental. Além do mais, construiu ali uma estrutura com um “paisagístico impressionante” no meio de uma reserva de índios, ditos isolados. Isso deixa claro que, por algum interesse, um primitivismo arbitrário foi imposto a uma sociedade que já havia optado por outras alternativas culturais.
Outro fato intrigante é que, enquanto se propaga o isolamento desse povo e que sua cultura está sendo preservada, registra-se um grande fluxo de estrangeiro na área. Ali gravam, reproduzem e vendem suas imagens no Brasil e no exterior a preços exorbitantes. Basta uma pesquisa na internet para constatar exposição de imagens e disponibilidade de filmes dessa etnia em exibição e alguns deles em cartaz em Sites de ONGs que pregam ser defensores de sua cultura.
Percebe-se que os Zo’é são mantidos isolados e obrigados a viver de forma totalmente primitiva para ser atração turística internacional. O pior de tudo é que o jornal Folha de São Paulo de 09 de julho de 2000 noticiou que um Deputado Federal na época protocolou denúncia dessas irregularidades junto ao Ministério da Justiça e ao Ministério Público Federal, mas tudo indica que as devidas providências não foram tomadas para corrigir essa situação.
Lamentavelmente são coisa que nossas autoridades não vêem ou não querem ver. Portanto, enquanto esse enigma não for decifrado, essa comunidade indígena continuará sendo objeto de interesses diversos em detrimento dos seus direitos prescritos em nossa Carta Magna e na Declaração Universal dos Direitos Indígenas, assinado pela Presidência da República no ano de 2007.